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As
Incríveis Estórias Extraordinárias
de Nova Iguaçu:
Alegrias e Desventuras
Uma Triste
História de Amor
by Regovsky
Esta é uma triste história de amor. Se algum dia
cair sob as vistas do meu amigo Luiz Fernando,
espero que ele proceda de acordo. A tragédia
começa no dia do seu casamento e faz lembrar
Abelardo e Heloisa, Tristão e Isolda, Marília e
Dirceu e como não poderia deixar de ser, Romeu e
Julieta.
Luiz Fernando e Mara Lucia conheceram-se no
jardim de infância do Colégio Leopoldo e tinham
apenas seis anos de idade. Foi um amor bonito,
fulgurante, feito para durar por todas suas
vidas.
Na
juventude Luiz Fernando fora convocado para
servir ao exército, mas na véspera da
apresentação, por ser pacifista, o futuro
recruta teve uma crise de depressão nervosa, um
piripaque, e acordou completamente careca. Sua
calva ficou igualzinha a uma bola de bilhar.
Mara Lucia, como era de se esperar, não deu a
mínima para o ocorrido, continuou achando seu
amado bonito assim mesmo. Mas estava provado que
este pequeno problema não era de nervoso, mas de
genética. Seu avô e tios também atendiam pelas
alcunhas de Lóssio Careca, Waldemiro Careca e
Waldir Careca. Desde então, Luiz Fernando passou
a atender também como Nando Careca.
Avançando a história: finalmente o tão sonhado e
florescente dia. O dia do esperado casamento. A
Igreja de Santo Antonio de Jacutinga toda
engalanada, o altar decorado com lírios e
tulipas brancas, e todas autoridades presentes,
inclusive o Coronel Nicolau. A catedral estava
completamente lotada. O Santo Padre João Musch e
seus coroinhas papa-hóstia, Albênzio Soares,
Victor Farjalla e Felipe Baroud David, todos
devidamente paramentados.
Mara Lucia chegou primeiro, linda, toda de
branco e, com seus padrinhos dirige-se ao altar
a espera do seu amado. De repente, aparece belo
e fulgurante o noivo Luiz Fernando. Mas,
aconteceu, um grande silêncio, um silêncio
sepulcral. O pasmo foi geral.
Ele, vestido elegantemente de pajem, meias três
quartos brancas, sapatos de fivela com sua roupa
imperial estilizada, feita pelo Elói Alfaiate,
pai do Carlinhos Elói, igual àqueles trajes do
século XVIII usados pelos reis e luminares da
corte francesa.
Passado o primeiro minuto de susto e silêncio, a
incredulidade transformou-se em baderna,
assovios, vaias e gritaria. Uma gargalhada
geral. Luiz Fernando tinha tentado disfarçar sua
calva com uma bela peruca cacheada igualzinha a
do Rei-Sol da França, Luiz XV.
Então, completamente transtornado e magoado com
as injustas e ingratas gargalhadas de deboche
dos amigos, ele, coitado, abandona o braço da
madrinha Neném Joana, a igreja e a solenidade do
tão sonhado casamento. O noivo escafedeu-se,
evaporou-se, sumiu na poeira, montou no dezoito,
deu linha na pipa e... desapareceu! A
perplexidade, o arrependimento da gozação foi
acompanhado por choros convulsivos. Pairou
novamente, pelos quatro cantos da matriz um
silêncio sepulcral.
-
Estou muito assustada, delegado Zorly Martins,
temos que encontrá-lo, ele pode nunca mais
voltar! Eu o amo muito!
Mara Lucia passou a noite inteira sentada à mesa
e se quedou paralisada, enquanto as flores da
guirlanda do seu véu murchavam de tristeza e de
dor... Um triste e desolado dia.
Passou um dia, passou uma semana, passou um mês.
Agora, são passados quase trinta anos desde
àquele trágico dia. A desencantada noiva Mara
Lucia, até hoje ainda não teve notícias alguma
do seu ex-futuro-amado-esposo.
♥
Escrevi essa história, seus putos, que vaiaram
um dia o nosso bom amigo Luiz Fernando Careca,
na esperança de que ela caia em suas mãos, para
que ele leia e que neste glorioso dia, enfim,
ele volte...
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A
Bela Mara Lucia |
Luiz
Fernando Cabeleira |
Luiz
Fernando Careca |
♥♥♥
Um Domingo Bonito de Sol
by Regovsky
Num
domingo bonito de sol, no ano de 1936, meu pai
Sancho Moura Sá, beque central do Esporte Clube
Iguassu, vestiu seu terno de tropical inglês
Taylor 120, colocou a gravata de seda Hermès, calçou
seu sapato de cromo duas cores Alírio
Chambarelli, penteou o cabelo
com a brilhantina Emèroud de Coty da L'Oreal de
Paris, pegou o trem
e foi para a Central do Brasil comer um pastel e
tirar um retrato no lambe-lambe no Campo de
Santana.
Foi
quando Valdir Preto Velho, filho de criação,
debutando na sua primeira grande viajem,
perguntou:
- Pai
Sancho, aqui no Campo de Santana tem cotia?
- Valdir, tem paca e tatu, cotia não!
Cinqüenta anos depois, encontro meu irmão
Valdir, agora sargento da Polícia Militar,
controlando a entrada do jogo de voleibol da
seleção no Maracanãzinho lotado. Tirei esta foto
da carteira e mostrei pro amigo:
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Valdir e Sancho Moura Sá |
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Campo de Santana 1936 |
Valdir
emocionado chorou muito, nunca vi um homem
chorar tanto assim! Me abraçou apertado e me colocou na
Tribuna de Honra.
Poucos
meses depois, pai Sancho morre atropelado no dia
do aniversário do seu neto Iuri e Valdir goleiro
frangueiro se mata, estourando os miolos com um
tiro na cabeça. Foi muito triste e muito trágico, não
merecia isso.
Morreram!
Fudeu! Tudo Acabou!
Caminharam para a morte inevitável,
Partiram
pro infinito, vão virar constelação.
A vida
humana não passa de um sonho,
De um
sonho e de um pesadelo!
A natureza humana é limitada.
Ela suporta a alegria, a tristeza, a amargura,
o sofrimento, a angústia, a dor, mas até certo
ponto.
Se ultrapassar, morre, sucumbirá.
A coisa mais certa
desse mundo é que o afeto,
somente o afeto e a amizade,
torna o ser humano necessário.
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Rádio Solimões |
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by Regovsky |
Locutor Rádio Solimões, ZYP-32, ondas médias, curtas e
freqüência modulada, entrando no ar! Bom dia meu prezado
ouvinte! Se ligar agora e fizer uma frase com uma palavra
que não exista no dicionário, ganha duas entradas para o
Cine Pavilhão de Iguaçu. Alô quem fala?
Ouvinte
Joselito, do Jardim Cabuçu!
Locutor Olá Joselito! Já conhece a brincadeira? Qual a
sua palavra?
Ouvinte
A palavra é vaice
Locutor Vaice? Como se escreve?
Ouvinte
V-A-I-C-E
Locutor Espera um pouco, deixa eu consultar o
dicionário. É, realmente essa palavra não existe. Agora faça
uma frase usando a palavra e se a frase fizer sentido você
ganha as entradas pro cinema.
Ouvinte
Legal, lá vai... Vaice foder!
Locutor Que que isso minha gente! Vamos coloborar,
afinal tem crianças ouvindo o programa a essa hora! Vamos
tentar outra ligação: Alô quem fala?
Ouvinte
Ezequiel Jacaré, do bairro Moquetá.
Locutor Fala meu prezado Ezequiel Jacaré! Qual a sua
palavra?
Ouvinte
Eudi
Locutor Eudi? Como se escreve?
Ouvinte
E-U-D-I
Locutor Espera um pouco Ezequiel Jacaré, deixa eu ver no
dicionário: eudesmano, eudesma, eufrásia, eutanásia... É,
realmente a palavra não existe. Agora faça uma frase com
essa palavra e se a frase fizer sentido meu prezado
Jacaré, você e sua namorada ganham as entradas pro cinema!
Ouvinte
OK, lá vai: Sou Eudi novo... Vaice foder!
♥♥♥
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Fênix |
O
Canto da Sereia |
Pássaro Estropiado
Ressurgindo
dos escombros e das cinzas
Após experimentar os limites da dor e do
desespero
Talvez renasça um novo ser
Que soube descer as profundezas do inferno
Tentar readquirir forças para alçar vôo
Acima das humanas fraquezas.
E eis-me aqui
Regovsky,
O Pássaro Estropiado,
Olhos cegos, coração descompassado,
Mesmo assim tentando recomeçar a voar...


Quem não Sonha o Azul do Vôo,
perde seu poder de Pássaro!
Mário Quintana
♥

Johann Goethe
1749/1832
Ela era uma doce
criatura que crescera no círculo acanhado das suas
ocupações, levando sempre o mesmo tipo de vida. Não
conhecia outra espécie de prazer senão ir, uma vez
ou outra, aos domingos, passear nos arredores da
vila em companhia das suas amigas. Quando não, ia
dançar numa ou outra festa.
Até que a sua
natureza ardente sentiu, afinal, certas solicitações
mais íntimas, estimuladas pela lisonja dos rapazes.
Então, seus divertimentos de outrora perderam aos
poucos todo o interesse, até que ela sai do seu
retraimento porque encontra alguém para o qual a
impele um sentimento desconhecido e poderoso.
A afinidade de suas
almas se manifestara desde o primeiro momento em que
se conheceram. É para esse alguém que se voltam
todas as suas esperanças, e ela esquece o mundo e
não ouve, não vê, não sente senão esse alguém. Só
existe ele para ela, só a ele deseja.
Como essa moça não
estava corrompida pelas satisfações frívolas da
vaidade, o seu desejo vai direto ao fim: ela quer
pertencer-lhe, encontrar numa união eterna toda a
felicidade que lhe falta e com ele fluir todas as
alegrias pelas quais tanto suspirava.
Promessas sempre e
sempre repetidas transformaram sua esperança em
certeza. Carícias ousadas afloram seus desejos,
acabam cativando completamente a sua alma, e ela
flui, num estado de semi-consciência, num sonho de
ventura incomparável. Tendo atingido o mais alto
grau de impaciente espera, quando enfim, estende os
braços para chegar à realização de todos os seus
votos... Àquele a quem amava, abandona-a.
Ei-la privada de
todas as faculdades de sentir e de pensar! Vê
diante de si um abismo, em torno, trevas e só
trevas. Nenhuma perspectiva para o futuro, nenhuma
consolação, nenhum raio de esperança, porque ele a
deixou, aquele unicamente em que ela se sentia
viver.
A coisa mais certa
deste mundo é que o afeto, somente o afeto, torna o
ser humano necessário. Não vê mais o universo em
torno, nem aqueles que poderiam substituir o bem
perdido. Sente-se sozinha e abandonada para sempre.
Então, cega e
alucinada pela angústia horrível que lhe constringe
o coração, precipita-se na morte que a espiava de
todos os lados, a fim de nela afogar os seus
tormentos. Ela, que não encontrando saída no
labirinto onde as forças lutam e se debatem
confusamente, caminhou para a morte inevitável.
♥

O Circo do Seu
Carnaca
by
Regovsky
“El
Gran Circo Carnaca” foi o maior circo que a
cidade de Nova Iguaçu conheceu. Aos sábados a
galera partia pra lá pra beber, paquerar e se
divertir. Mas quando o espetáculo terminava, a
tristeza e a melancolia baixava geral. Coitado
do velho Carnaca, seu circo era uma pobreza, o
retrato da miséria.
A lona
era toda furada, o leão Tunico não urrava e era
muito magrinho, a bailarina Bilica, namorada do
Tião Faquir, tinha as pernas fininhas e as meias
toda furada, o palhaço Broinha não tinha graça
nenhuma, a Bandinha desafinava o tempo todo, o
trapezista Anselmo caía na rede toda hora, o
mágico Pituca quase não entrava em cena porque
estava sempre bêbado...
Enfim,
parecia o Circo dos Horrores!
No final
do espetáculo aplaudíamos muito, mas nossos
olhos ficavam cheios d´agua...
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